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O cinema 3D e as dimensões do mundo real

Atualizado: Mar 22



A sigla “3D” tem surgido cada vez mais em nossas vidas, dando-nos a impressão de que esse conceito vem sendo trazido pelas últimas conquistas tecnológicas. Mas, ao contrário do que se possa pensar, é um conceito antigo, já tendo aparecido para o público em diversas ocasiões, várias décadas atrás.


Para quem trabalha com câmeras no registro de imagens, é familiar a noção dos diferentes tipos de resultados proporcionados por diferentes tipos de lentes. Algumas lentes “enxergam” uma área maior do que outras, à frente da câmera e são denominadas grande-angulares, exatamente devido ao seu maior ângulo de visão. Entre as lentes do tipo grande-angular encontramos ainda variações, umas tendo ângulo de visão maior do que outras. No limite extremo, aparecem as lentes chamadas fisheye: recebem esse nome porque seu ângulo de visão imita o ângulo de visão do olho da maioria dos peixes. Eles vêem uma área de 180graus com cada olho, o que significa que tem amplo domínio do que acontece à sua volta.


Nossos 2 olhos também servem para proporcionar uma ampliação de nosso campo de visão, o que vemos com os dois é mais do que o que vemos somente com um. Considera-se que a visão de um único olho para a maioria das pessoas gira em torno de 90graus, o que pode ser comprovado fechando-se um dos olhos e medindo-se mentalmente o campo de visão. Mas essa não é a única nem a principal característica da nossa visão com 2 olhos: o mais importante é que a visão de um olho se sobrepõe parcialmente à visão do outro olho. Basta olhar para frente e fechar alternadamente um e outro olho para perceber isso. Existe uma área vista somente por um dos olhos e existe outra área vista pelos dois olhos. E é essa área com visão sobreposta a responsável por nos proporcionar a visão em 3 dimensões, largura, altura e profundidade, representada pela sigla “3D”.


Ela pode ser facilmente percebida se olharmos para nossas mãos e fecharmos / abrirmos qualquer um dos olhos: em uma situação estaremos percebendo o volume e os contornos de profundidade das mãos, em outra somente um recorte em duas dimensões, “2D”. Se tentarmos imitar essa visão com 2 câmeras fotográficas posicionadas de maneira a imitar o posicionamento de nossos olhos, o que iremos obter serão 2 fotos distintas, cada uma “vendo” determinado objeto um pouco mais de lado do que a outra. Se sobrepusermos as duas, em um software que permita a sobreposição de imagens, deixando-as ligeiramente transparentes, veremos que não irá aparecer o efeito 3D.


Isso ocorre porque a noção das 3 dimensões é proporcionada pelo nosso cérebro, que funde as duas imagens diferentes vistas por cada um dos olhos em uma só, transmitindo à área responsável pelo entendimento e análise das informações visuais a idéia de volume em uma forma contínua do objeto. O segredo então para reproduzir artificialmente essa visão é fornecer a cada um dos olhos a visão que ele teria se estivesse na realidade em questão – o local de uma filmagem por exemplo. Nesse local, cada olho teria a visão ligeiramente deslocada para um dos lados, ou seja, a distância de cada olho no rosto humano. A tarefa portanto consiste em registrar simultaneamente duas visões separadas lateralmente umas das outras, o que se traduz em utilizar 2 câmeras gêmeas, “grudadas” lateralmente.


E a segunda etapa, complementar desta, é fazer chegar a cada olho dos assistentes na platéia somente uma dessas imagens, o que leva a diferentes tecnologias, que vão desde o uso de filtros colocados sobre os olhos de forma que uma das 2 imagens projetadas não seja vista (alternadamente a outra imagem para o outro olho), filtros estes montados sob a forma de óculos ou telas especiais, ainda em fase de protótipos, que não deixam um olho ver o que o outro vê. No meio caminho entre essas duas tecnologias, diversas outras, algumas já abandonadas, outras ainda sendo desenvolvidas.


Mas as tentativas de se capturar e mostrar imagens em 3D, muitas com sucesso experimental mas não comercial remontam a muito tempo atrás. Afinal, quem poderia imaginar que três anos antes da princesa Isabel assinar a Lei Áurea (1888) um inventor americano (Frederick Eugene Ives) demonstrava em uma exposição na Filadélfia um sistema de fotografia colorida em 3D? E que anos mais tarde, no início dos anos 20, juntamente com seu colega Jacob Leventhal, produziria uma série de filmes em 3D denominada Plastigrams?


A partir desse começo de século, registram-se diversas experiências, inclusive exibições comerciais temporárias. Dizem os historiadores que o primeiro filme em 3D exibido comercialmente teria sido The Power of Love, no Ambassador Hotel em Los Angeles, em 1922. Na sala de exibição era empregando o processo de duas imagens simultâneas sobrepostas na película projetadas na e os expectadores utilizavam óculos contendo os filtros para que cada olho visse somente uma das projeções. Para os padrões de hoje a ilusão era bastante precária, devido a dificuldades na construção desses filtros em associação com a separação das imagens nas películas feitas através de filtros nos projetores e na sincronização dos mesmos. Mas, como ninguém antes havia visto algo parecido, a sensação era muito real.


Algumas dessas experiências teriam aplicações nada práticas se fossem realizadas nos dias de hoje… como a dos projetores sincronizados. Nesta tecnologia, estreada no mesmo ano de 22 no Selwyn Theatre de NY com a projeção de um filme de 95 minutos (The Man From M.A.R.S.), os projetores exibiam, de forma alternada, imagens que deveriam ser vistas com o olho esquerdo e imagens que deveriam ser vistas com o olho direito. A diferença é que em cada poltrona (!) havia um dispositivo sincronizado com os projetores, nada portátil, que as pessoas seguravam à frente de seus olhos para verem a tela…


O próprio Lumiére faria em 1934 um remake (outra coisa que já existia desde aquela época…) de seu primeiro filme, o famoso L’Arrivée du Train, que tanta sensação tinha causado na ocasião, em 1895, com pessoas correndo para fora de suas cadeiras, agora em 3D.


Seguem-se outros lançamentos em 3D, como Third Dimensional Murder pelos estúdios da MGM em 1941 em Technicolor – aqui, uma curiosidade: apesar do filme ser registrado em película colorida, o uso das cores destinava-se a criar películas coloridas filtradas, uma para cada visão do olho e no final do processo as pessoas no cinema viam o filme em preto e branco.


Alguns anos mais tarde surgiria outro processo que levaria ao emprego de óculos polarizados ao invés de óculos com filtros coloridos. Quem já fotografou pelo menos como hobby um tanto mais avançado conhece o chamado filtro polarizador, que filtra as ondas de luz conforme o plano espacial em que elas se propagam. Ou, de maneira mais simples e direta, elimina algumas luzes e outras não, como as dos reflexos em metais e vidros por exemplo – uma de suas aplicações. Este filtro foi criado por Edwin H. Land, outro inventor americano, em 1929.


Com ele a separação das vistas esquerda e direita da imagem também podiam ser feitas, em um processo que exigia a projeção sincronizada de 2 películas e uma tela diferente, chamada silver screen – a luz polarizada não dava bons resultados com o uso das telas comuns. Os assistentes utilizavam óculos diferentes: ao invés dos filtros coloridos, filtros polarizadores. Seguem-se então vários filmes utilizando esse processo na década de 30, como In Tune With Tomorrow (1939) e logo a seguir, a interrupção dessas inovações por conta da Segunda Guerra Mundial.


O término da guerra trouxe o ressurgimento do 3D com uma inovação: as imagens que até então eram em P&B passaram a ser coloridas com Bwana Devill, de 1952, também utilizando o processo polarizado com dois projetores sincronizados. Houve então um boom do cinema 3D, com algumas dezenas de filmes: Now Is The Time, Around is Arond, A Solid Explanation, The Black Swan, American Life e muitos outros. O processo anterior dos óculos coloridos era às vezes utilizado também. O início dessa década trazia a estréia do som estéreo e House of Wax (1953) foi o primeiro filme 3D a empregá-lo. A Disney também embarcaria na onda, com o filme Melody no mesmo ano. A febre do 3D espalhava-se através dos grandes estúdios, Colúmbia, Universal, Paramount, 20th Century Fox…


A década seguinte veria o declínio desses sistemas, principalmente com o surgimento do Cinemascope em 53: até então, apesar do efeito 3D, todos esses filmes traziam o aspecto 4:3 (o mesmo da TV tradicional, denominado Academy Aspect). No entanto, muitos eram os problemas práticos desse tipo de projeção, desde a necessidade dos 2 projetores projetando películas sincronizadas e os problemas decorrentes das constantes falhas até a questão da necessidade da tela especial no processo polarizado, que também não era apropriada para filmes comuns, além de apresentar problemas de visibilidade especialmente nas extremidades.


O Cinemascope veio trazer uma solução que, se não era 3D, pelo menos causava também sensação na platéia devido à novidade da tela bem mais larga. E com uma grande vantagem: o baixo custo, já que um único projetor, com lentes especiais, dava conta do recado.


Até o final dessa fase que coincide com a ascenção do Cinemascope, terminando no meio da década de 50, dezenas de filmes 3D foram feitos: como o musical Kiss Me, Kate da MGM, o filme Hondo da Warner com John Wayne e diversos outros, incluindo um desenho do Popeye e o filme Dial M for Murder do Hitchcock. O 3D ainda debutaria em tela larga, na versão Cinemascope, já no início da década de 60, com September Storm.


Embora não tenham desaparecido de vez, os filmes em 3D na década de 60 trouxeram uma inovação: finalmente abandonavam-se os 2 projetores sincronizados e a película passava a registrar sobrepostos os 2 fotogramas – processo utilizado até hoje. O filme The Bubble estreava a nova tecnologia. A década de 70 traria a junção do processo dos fotogramas sobrepostos com a tela larga de maneira definitiva, tanto no formato Cinemascope quanto em 70mm. E na década de 80 o 3D entrava como opção para o IMAX, que como 2D já existia a muitos anos em diversos países.

A tecnologia 3D tornou-se bem mais complexa, fazendo experiências com a captura em vídeo, como Ghosts of the Abyss de James Cameron (2003), capturado em HDTV com equipamentos especiais ou com a projeção em telas especiais sem a necessidade do uso de óculos. E, nos dias de hoje, encontrou ainda um forte aliado: a projeção digital. Ao abandonar a cara película, houve um ganho nos recursos consumidos tanto na captação como na distribuição e projeção. A alta resolução, equivalente à da película de 70mm chega ao IMAX digital – a primeira sala IMAX instalada no Brasil, em S.Paulo (SP) também foi a última desse sistema a funcionar no processo tradicional em película. As próximas instalações de IMAX passaram a ser digitais. O processo digital torna também a exibição em 3D no IMAX mais barata e simplificada.


Como se vê, o 3D vem acontecendo em “ondas” no cinema, sempre acompanhado da disputa com a TV, que agora torna-se full HD em tela larga com os sistemas HDTV. Para este ano de 2009 e o próximo os grandes estúdios já planejaram diversos novos lançamentos em 3D. É a nova onda que ressurge, tentando puxar o público “full HD” para a experiência sensorial em que crianças tentam pegar no ar os peixinhos virtuais flutuando pela sala de projeção.


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